Por Matheus Kich
Uma história de encontros: a família chinesa e o Coritiba. Em uma entrevista, Lian Hua Liu Iwersen conta mais sobre como era o Coritiba e a Curitiba nos anos 50. Da mesma forma, Lian conta mais sobre o encontro com a família Iwersen, uma das responsáveis pela fundação do Coxa.
Família, bairro e Coritiba: uma história de encontros da China até aqui
Curitiba é uma cidade que faz jus ao Brasil quando o assunto é diversidade, ainda que a sua diversidade seja de origens específicas, como as nacionalidades do leste europeu muito presentes aqui. Mantemos o privilégio de encontrar pessoas com ancestralidade de pelo menos três continentes do mundo fora as Américas. O Coritiba, enquanto um clube com lastro e tradição na vida social da capital paranaense, não poderia ser diferente.
Trazemos aqui uma rica história da qual a palavra-chave é encontro: o encontro entre duas famílias de dois continentes distintos, a Europa e a Ásia; entre atividades econômicas envolvendo o ramo imobiliário; em um tradicional bairro de Curitiba muito próximo ao então Belfort Duarte, o que fez todo o sentido para que as duas famílias encontrassem a paixão pelo Coritiba, cada qual em seu momento e circunstância.
Uma família chinesa no Alto da Glória
Lian Hua significa esperança, e é ele a principal fonte deste artigo. Ele é filho de Liu Ping, chinesa, chamada de Teresa após a naturalização brasileira, e neto de Liu Tze Liang, chinês nascido em 1902 e sócio contribuinte do Coritiba. Lian é também filho de Paulo Roberto Iwersen, que por sua vez, é neto de Arthur Manoel Iwersen, um dos fundadores do Coritiba e um dos primeiros jogadores do time, além de ter emprestado o terreno do primeiro campo de futebol do qual o Alviverde jogou.
A família Liu – o sobrenome vem na frente – emigrou da China partindo da província de Hunan, localizada ao Sul do país, Hu significa lago e Nan significa Sul. Hunan é uma importante província com mais de 66 milhões de habitantes atualmente. É a mesma província de nascimento do líder revolucionário Mao Zedong1. Lian conta que seu avô, Liu Tze Liang foi um militar das forças armadas de Chiang Kai-shek, general e líder da República da China antes da revolução chinesa se concretizar a partir de 1949, razão da qual motivou sua trajetória de imigração ao Brasil junto com seus sete filhos2 e esposa de seu segundo casamento: Chang Swai Ching (esposa); Liu Lee (filho) Liu Su (filha); Liu Kai (filho); Liu Un (filha); Liu Ping (filha de Tze e mãe de Lian); Liu Hsu (filho); Liu Ming (filho).

Apesar da saída forçada do país natal, Lian afirma que a família do Brasil mantém laços com a família Liu que continua na China, inclusive, membros da família daqui já fizeram diversas visitas ao país asiático. Em uma dessas ocasiões, seu tio Dago3 (Liu Kai) representou a família na China em uma ocasião muito especial e emocionante, a inauguração de uma escola que leva o nome de Liu Tze Liang, avô de Lian.
Conexão China – Brasil
A família Liu veio ao Brasil de navio, atracando no Rio de Janeiro. De lá, ouviram falar das boas oportunidades para imigrantes no Paraná e decidiram se estabelecer na capital. A atividade econômica da família começou no setor imobiliário, no bairro de Santa Felicidade, com a compra e aluguel de terrenos. Cada membro da família passou a adotar nomes brasileiros, prática que é comum com migrantes da Ásia, principalmente China. A tia Liu Su passou a ser chamada de Suzy. Liu Ping, Teresa – Terezinha, a mãe de Lian; Liu Kai foi chamado de Baltazar, com inspiração bíblica; Liu Hsu passou a ser Francisco; Liu Un, Ana; Liu Ming, Miguel, o tio mais novo, que também é chamado de tio Baby.
O encontro das famílias Iwersen e Liu
Tze buscou comprar um terreno no bairro do Juvevê para construir a casa da família, na esquina com a Rua Rocha Pombo e a Rua Barão de Guaraúna, a 10 minutos de caminhada onde hoje é o Estádio Major Antônio Couto Pereira. Acontece que o terreno era parte da fazenda de Arthur Manoel Iwersen, bisavô de Lian, que emprestou o seu campo para os primeiros jogos do Coritiba, onde hoje é o Graciosa Country Club.
Além disso, Arthur também foi jogador de pelo menos os dois primeiros jogos do time coritibano atuando como lateral, segundo Lian. Dessa forma, os pais de Lian se conheceram ainda crianças, Ping (Teresa) e Paulo junto com os tios de Lian, brincaram muito pelos bairros do Juvevê e Alto da Glória, sendo a expansão do Belfort Duarte um desses lugares de diversão das crianças e jovens.

O vínculo com o estádio coritibano
Lian conta que foi uma surpresa saber que seu avô chinês era sócio do Coritiba, apesar de saber que toda a sua família, Iwersen e Liu, torcem para o Coxa e frequentam o estádio desde que tem memória.
A relação família, bairro e Coritiba estava entrelaçada. A história contada é que seu o tio Liu Ming (Miguel) gostava muito de brincar com seus irmãos nas construções das novas arquibancadas do Belfort Duarte. Até que um dia, Ming decidiu subir no segundo anel da arquibancada da Mauá, local ainda não concluído, quando por falta de atenção caiu. Por sorte, no chão havia areia, amortecendo parcialmente sua queda, mas não impedindo uma fratura no braço – “Ming gostava tanto do estádio, que até deixou seu pedacinho lá”, brincou.
Hoje, é o Lian Hua Liu Iwersen quem tem seu nome na cadeira localizada na tribuna de honra, herdado por parte da família Iwersen, de um dos fundadores do nosso amado clube. Lian conta que seus pais frequentavam o clube social do Coritiba, o Concórdia e o Duque de Caxias em Curitiba em festas, bailes e carnavais, que não estavam mais em atividade desde a sua época, a partir de 1973.
Outros personagens coritibanos e a família Liu e Iwersen
A família Liu mantém sua cultura chinesa através da culinária, como os famosos baozi – um tipo de pão cozido no vapor. Não faltam estatuetas do Buda em casa e a família comemora o Ano Novo Chinês. A relação da família Liu e Iwersen é repleta de momentos especiais e rotineiros que envolvem o bairro. Lian conheceu o filho do Aladim na escola Santa Maria e mais tarde o próprio Aladim, chegaram a assistir jogos juntos no Couto. Lá, também conheceu o Vavá, campeão de 1985. Lian também já trabalhou com o Ariel, filho do Krüger.
A relação familiar com o bairro do Alto da Glória
“Em relação ao bairro, a família Iwersen todos os domingos fazia um café na casa do meu avô e da minha avó ali, então todos os parentes se reuniam. A minha bisavó morreu com 96 anos, então ela estava sempre presente. Minha bisavó era Adelaide Iwersen, a mulher do meu bisavô [Arthur]. E eu me lembro que a gente fazia os cafés aos sábados, domingos, e o futebol sempre muito presente, sim. Eu me lembro que o meu pai, os primos dele, iam ao jogo, a gente ficava na casa da minha avó, quando eu era pequeno, eles iam, saíam a pé para lá, todos os jogos assistiam. […] Em 1985, quando fomos campeões, foi a maior festa na família também, fizemos carreata, fomos de madrugada”
“São muitas as histórias do Juvevê, as histórias com o meu pai, com a minha mãe, com o meu tio, tenho um tio que casou com outra chinesa, né. Eles também fizeram a mesma turminha, que se encontravam para beber, para ir a uma festa, se encontravam no Juvevê, era o ponto de encontro deles, né.”
A relação familiar com o Coxa
Lian também conta da relação com seu pai e o Coritiba, que de fato é uma socialização comum a muitos de nós. No caso, após o falecimento de Paulo Iwersen, o Lian passa a ser muito mais assíduo no estádio.
“Coisa louca. Meu pai faleceu dia 2 de fevereiro de 1998, o ano que eu casei. Muito novo, ele tinha 51 anos. Hoje eu tenho 52 anos, né. E eu me lembro que ele faleceu, assim, era uma segunda-feira, e o Coxa jogava na quarta. E eu fui pro estádio, pra assistir ao jogo do Coritiba. Assim, meio que uma homenagem a ele, sabe. Eu me lembro muito disso. Depois que ele faleceu, eu comecei a frequentar mais o estádio. Daí que eu fui ver a carteirinha, como fazer, acertar as contas. E hoje eu não perco um jogo. Hoje eu vou em todo jogo, eu tô lá. Mal, bem, segunda divisão, primeira divisão, onde tiver, eu tô lá.”
Essa história corrobora com a proposta em compreender a relação da cidade com o nosso clube e as trajetórias pessoais, individuais e coletivas. O projeto “Coritiba, Curitiba e a História da Nossa Gente” tem a missão de preservar o patrimônio material e imaterial do Coritiba e evidenciar sua forte relação com a cidade e as pessoas.
Matheus Kich é cientista Social graduado pela UFPR. Estudou migração e religião na graduação.
Diretoria do Alviverde pretende propor o tombamento do Acervo do Coritiba
A diretoria do time Coxa-Branca já iniciou os trabalhos visando o tombamento do Acervo do Clube, de forma a dar melhores condições de guarda, tanto quanto ampliar o acesso público aos itens.
Em Curitiba, existe uma legislação local específica para o tombamento de itens de relevância histórica para o Município. Esse é um tema regulamentado pelo Decreto nº 360, de 29/03/2019. A referida legislação conceitua o que é o Tombamento: “ato administrativo que declara a singularidade e excepcionalidade de um bem considerado individualmente ou em conjunto, seja móvel ou imóvel, público ou privado, pertencente à pessoa física ou jurídica”.
Além disso, essa ação está relacionada “em razão do seu valor cultural, histórico, paisagístico, científico, artístico, turístico, arquitetônico ou ambiental, com instituição de um regime jurídico especial de propriedade como forma a garantir sua preservação e conservação”.
As pesquisas continuam e mais pessoas podem doar cópias digitais de seus acervos para o Coritiba
As pesquisas sobre a história do Coxa seguem com os trabalhos da Comissão de Preservação da Memória e da História do Coritiba Foot Ball Club. Primordialmente, quando o assunto são os fundadores do Verdão, a pesquisa é realizada conjuntamente com o grupo de historiadores Helênicos, estudiosos da história coritibana.
Da mesma forma, atividades vêm sendo realizadas pelo grupo de pesquisa e extensão a partir do núcleo de ciências jurídicas. Entretanto, este grupo recebe alunos de outras áreas da UFPR.
Por se tratar de uma pesquisa de grande amplitude e dificuldades no acesso de fontes primárias, atualizações dos bancos de dados são sempre bem-vindas e recomendadas, de forma aprimorar a metodologia de trabalhos.
Logo, é importante destacar que eventuais imprecisões podem ocorrer, sendo um problema da pesquisa. Por isso mesmo é tão importante que se disponibilizem novas fontes documentais.
Portanto, familiares dos fundadores do Coritiba Foot Ball Club que tenham interesse em doar cópias digitais de itens relacionados aos fundadores podem entrar em contato com a direção do Clube clicando aqui.
Verdão tem uma parceria técnica com a UFPR para melhor cuidar da história do Clube
Em uma parceria entre o Coritiba e a UFPR, o acervo histórico do Verdão também é cuidado por acadêmicos de graduação, bem como de pós-graduação. Nesse sentido, são pessoas com interesse em pesquisar mais a história do Clube e sua relação direta com a cidade de Curitiba.
O grupo de pesquisa e extensão foi formado a partir do núcleo do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná. O grupo conta com alunas e alunos também de outras áreas da UFPR, como da História, Ciências Sociais e Educação Física. A equipe iniciou os trabalhos acadêmicos no acervo histórico do Coxa em 02/07/2025.
O professor Luís Fernando Lopes Pereira é o líder do grupo de pesquisa. Ele conta com a colaboração de outro docente da Universidade, o professor de Sociologia na Faculdade de Direito, Rodrigo Horochowski, que também acompanha as atividades de pesquisa científica do grupo. Entre os achados do grupo, borderôs e relatórios financeiros de todos os jogos do Coritiba no Torneio do Povo.
*** CFC ***
As principais responsabilidades da diretoria do Coritiba Foot Ball Club, como Associação, estão vinculadas à fiscalização do contrato de compra e venda da SAF. Nesse sentido, são obrigações diretivas:
– Principalmente, acompanhar o cumprimento do pagamento das dívidas, em especial das parcelas da recuperação judicial da Associação;
– Da mesma forma, o cumprimento dos aportes financeiros anuais na gestão do Clube (futebol e atividades de apoio);
– Além disso, a gestão patrimonial. Inclusive quanto a manutenção e investimentos no CT Bayard Osna, no novo CT, tanto quanto no Estádio Major Antônio Couto Pereira;
– Bem como, os cuidados com a preservação histórica.
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Se você encontrou algum erro nesta matéria, por favor, entre em contato. Além disso, o Coritiba Foot Ball Club preza pelos créditos merecidos, então nos avise sobre eles.
- https://www.britannica.com/place/Hunan/Manufacturing acessado em 17/08/2025 ↩︎
- Nem todos os filhos aparecem na ficha de sócio. Apenas cinco deles estão lá. ↩︎
- Dago significa irmão mais velho, segundo Lian. ↩︎