A distinção entre sócio remido e proprietário de cadeira no Coritiba: confira um apanhado sobre a evolução histórica destes dois programas. Saiba mais sobre o tema conferindo uma análise realizada por André da Costa Ribeiro, conselheiro licenciado do Clube.
O conteúdo é esclarecedor quanto a um tema de interesse direto de parte da Torcida do Coxa, a distinção entre sócios remidos e proprietários de cadeira no Estádio Major Antônio Couto Pereira.
Por André da Costa Ribeiro
A distinção entre sócio remido e proprietário de cadeira no Coritiba: um histórico
Os sócios remidos do Coritiba surgiram durante a década de 1960, quando da construção das cadeiras superiores do Estádio Couto Pereira (na época Belfort Duarte), com a finalidade de financiar parte daquela obra.
Ao adquirir uma cadeira cativa, o torcedor se tornava proprietário perpétuo da respectiva cadeira (por isso “cadeiras perpétuas”), podendo acessar aos jogos no estádio sem pagar ingressos, mas pagando apenas a taxa de manutenção da cadeira.
Para incentivar a compra das cadeiras, foi assegurado que, além do acesso aos jogos, os adquirentes (naquela promoção específica) também se tornavam sócios remidos do Coritiba.
Inclusive, as cadeiras superiores foram, durante muito tempo, chamadas de “cadeiras sociais”, por serem as cadeiras onde ficavam os sócios.
Os benefícios de proprietários de cadeira no Estádio Couto Pereira
Ou seja, o proprietário da cadeira tinha dois benefícios diferentes:
– Acessar aos jogos sem o pagamento de ingressos (apenas a taxa de manutenção);
– Ser sócio vitalício sem ter que pagar mensalidade de sócio.
A definição de sócio remido
Por definição, sócio remido é aquele que não paga mensalidade do clube.
Clubes associativos como o Clube Curitibano e o Graciosa Coutry Clube, tradicionais na cidade de Curitiba, transformam em remidos aqueles sócio que pagam mensalidades por vinte e cinco, trinta ou mais anos, por exemplo.
No caso do Coritiba, o gatilho para a remissão era a compra da cadeira cativa.
O adquirente da cadeira cativa se tornava sócio remido do Coritiba de imediato, podendo desfrutar, além do acesso aos jogos de futebol, dos demais benefícios dos associados do clube, sem a necessidade de pagar as mensalidades de sócio para tanto.

O Alviverde como um clube social
Vale lembrar que o Coritiba era um clube associativo com intensa agenda social, em especial nas décadas de 1940, 1950 e 1960.
Eram famosos os bailes, principalmente de carnaval, bem como os shows de artistas nacionais e locais que aconteciam na sede social localizada ao lado do estádio, na rua Ubaldino do Amaral, no espaço onde hoje é parte do estacionamento, do museu e do bar.
Então, também era um atrativo a possibilidade de frequentar os bailes da sede social do clube Coritiba sem o pagamento das mensalidades de sócio.
Como o estádio do Coritiba seria o maior palco do futebol paranaense, onde os times da cidade mandariam seus principais jogos, além de coxas-brancas vários torcedores de outros clubes compraram cadeiras no estádio.
Por isso se tornaram sócios remidos do Coritiba.
E seguem sócios enquanto estiverem vivos, haja visto que a condição de sócio remido é vitalícia e diversa da condição de proprietário da cadeira.
Mesmo que vendam ou percam as suas cadeiras (por qualquer razão, como a doação para filhos ou terceiros, ou a falta do pagamento da taxa de manutenção, por exemplo), seguem sócios do Coritiba sem que tenham que pagar qualquer mensalidade.
Por isso muitos torcedores, e dirigentes, de outros clubes sempre aparecem na lista de votantes nas eleições do Coritiba (o que, supõe-se por desconhecimento, é destacado com surpresa pela imprensa).

O fim da sede social do Coritiba
Com o tempo, em especial a partir dos anos 1980, a parte social do clube foi esvaziada e ao longo dos anos 1990 acabou. Por um período o salão da sede social foi utilizado com quadra para a prática de esportes, principalmente o futebol de salão. Até a demolição da própria sede social no início dos anos 2000.
Como ilustração, tijolos da sede foram vendidos aos então Conselheiros do clube, quando da demolição.
O surgimento do programa de sócio-torcedor
Em meados dos anos 1990, com a saída de Evangelino Neves da presidência e a ascensão do triunvirato formado por Joel Malucelli, Sérgio Prosdócimo e Edson Mauad, iniciou a cobrança dos planos de sócio-torcedor (que aqui serão chamados de planos de torcedores para facilitar o entendimento), que tiveram diversos nomes ao longo das diversas gestões que se sucederam, e que davam acesso aos jogos do estádio sem o pagamento de ingressos, mas de uma mensalidade.

Os proprietários de cadeira, por sua vez, pagavam apenas a taxa de manutenção, que era historicamente baixa (pois havia o entendimento de que se referia apenas à limpeza das cadeiras).
Na época, os participantes dos planos de torcedores que não eram sócios remidos e queriam participar da vida política do clube tinham que se tornar sócios. Nesse caso, havia a cobrança de dois valores separados nos boletos: o plano de torcedores (que dava acesso aos jogos) e a mensalidade de sócio (que permitia votar e ser votado nas eleições).
O temor de dirigentes e Conselheiros do Coritiba da popularização do Clube
Isso se dava, em parte, pelo temor dos dirigentes e Conselheiros, que a popularização dos planos de torcedores permitisse o acesso dos torcedores à vida política da associação, que poderia implicar na perda do poder político do grupo que sempre esteve à frente do clube.
Nos anos 2000 o clube igualou o valor da taxa de manutenção dos proprietários de cadeiras ao valor do plano de torcedores das cadeiras superiores. A diretoria da época entendia que a manutenção envolvia uma série de outros itens além da limpeza das cadeiras, como o pagamento de tributos e as modernizações que estavam sendo feitas no setor, além da conservação do estádio como um todo.
Isso foi discutido democraticamente no âmbito do Conselho Deliberativo, que acabou por aprovar a equiparação do valor da taxa de manutenção ao valor da taxa do plano de torcedores.

O fim dos bailes e eventos sociais na sede do Coxa
Com o fim dos bailes, a vida social do Coritiba se restringiu ao acesso aos jogos e a participação eleitoral.
Na alteração estatutária de 2004, passou a constar que os pagadores dos planos de torcedores, por serem contribuintes, também seriam sócios, independente do pagamento de valores extraordinários.
Em 2008 esse entendimento foi modificado pela diretoria da ocasião, que criou planos “populares” (com valores mais baixos) que não davam direito à participação na vida política do clube (votar e ser votado).
Por outro lado, com a venda das cadeiras cativas (dos compradores originários para terceiros) ou a morte dos compradores originários das cadeiras nos anos 1960 (que eram sócios remidos) e a consequente transferência das cadeiras aos seus herdeiros, surgiu a figura dos proprietários de cadeiras que não eram sócios.
Inicialmente, isso se resolvia com o pagamento da taxa para ser sócio.
Quando a taxa de manutenção foi igualada ao plano de sócios, os aderentes ao plano de torcedores pagavam o plano e eram sócios, enquanto os proprietários de cadeiras pagavam o mesmo valor do plano de torcedores e não eram sócios (precisavam pagar um valor extra para serem sócios).
Proprietários de cadeiras pagavam mais para serem sócios que os aderentes aos planos de torcedores.
No final dos anos 2010, por proposta da diretoria de então, o Conselho Deliberativo reconheceu que os proprietários de cadeiras, por pagarem o mesmo valor dos aderentes aos planos de torcedores, passavam a ser sócios sem a necessidade do pagamento de taxa extra de associado.
No início dos anos 2020, na prática, o proprietário de cadeira e o aderente ao plano de torcedores com acesso às cadeiras superiores eram iguais para todos os fins. Podiam acessar as cadeiras superiores em jogos sem o pagamento de ingressos e podiam votar e ser votados nas eleições do clube.

Distinção entre sócio remido e proprietário de cadeira
O proprietário de cadeira podia acessar aos jogos sem o pagamento de ingressos (só com o pagamento da taxa de manutenção, depois igualada ao plano de torcedor).
O sócio remido era (e é) sócio vitalício da associação sem ter que pagar mensalidades.
São duas coisas completamente diferentes.
O sócio remido e proprietário de cadeira tinha os dois benefícios.
Os benefícios se confundiam na pessoa (que tinham os dois), mas não entre si (uma coisa é diferente da outra).
Privilégios políticos de sócios remidos
No início dos anos 2000, em que pese a história gloriosa e quase centenária, o Coritiba possuía menos de 1.000 sócios ativos.
Aí incluídos os sócios remidos, que nesse pequeno universo tinham força política.
Por serem sócios politicamente influentes, alguns sócios remidos sempre tiveram benefícios originados de suas participações no Conselho Deliberativo.
Assim, eventualmente conseguiram, em algumas ocasiões, a aprovação do não pagamento da taxa de manutenção ou mesmo do valor equivalente ao plano de torcedores. Mas ressalte-se que esses privilégios decorreram de situações específicas, geralmente fruto de negociações políticas ocorridas no âmbito do Conselho Deliberativo.
Diretoria do Alviverde propôs o tombamento do Acervo do Coritiba
Em 21/08/2025, a diretoria do time Coxa-Branca formalizou o pedido de tombamento do Acervo do Clube. Nesse sentido, o objetivo é dar melhores condições de guarda, tanto quanto ampliar o acesso público aos itens. Desse modo, a formalização do pedido do tombamento ocorreu por meio do Processo Administrativo Eletrônico nº 01-212074/2025. Agora, o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC) analisará e deliberará sobre ele.
Em Curitiba, existe uma legislação local específica para o tombamento de itens de relevância histórica para o Município. Esse é um tema regulamentado pelo Decreto nº 360, de 29/03/2019. A referida legislação conceitua o que é o Tombamento: “ato administrativo que declara a singularidade e excepcionalidade de um bem considerado individualmente ou em conjunto, seja móvel ou imóvel, público ou privado, pertencente à pessoa física ou jurídica”.
Além disso, essa ação está relacionada “em razão do seu valor cultural, histórico, paisagístico, científico, artístico, turístico, arquitetônico ou ambiental, com instituição de um regime jurídico especial de propriedade como forma a garantir sua preservação e conservação”.
As pesquisas continuam e mais pessoas podem doar cópias digitais de seus acervos para o Coritiba
As pesquisas sobre a história do Coxa seguem com os trabalhos da Comissão de Preservação da Memória e da História do Coritiba Foot Ball Club. Primordialmente quando o assunto são os fundadores do Verdão, ocorre uma pesquisa conjunta com o grupo de historiadores Helênicos, estudiosos da história coritibana.
Da mesma forma, atividades vêm sendo realizadas pelo grupo de pesquisa e extensão a partir do núcleo de ciências jurídicas. Entretanto, este grupo recebe alunos de outras áreas da UFPR.
Por se tratar de uma pesquisa de grande amplitude e dificuldades no acesso de fontes primárias, atualizações dos bancos de dados são sempre bem-vindas. Mais do que isso, são recomendadas, de forma aprimorar a metodologia de trabalhos.
Logo, é importante destacar que eventuais imprecisões podem ocorrer, sendo um problema da pesquisa. Por isso mesmo é tão importante que se disponibilizem novas fontes documentais.
Portanto, familiares dos fundadores do Coritiba, que tenham interesse em doar cópias digitais de itens relacionados aos fundadores, podem entrar em contato. Para isso, basta clicar aqui.
Verdão tem uma parceria técnica com a UFPR para melhor cuidar da história do Clube
Em uma parceria entre o Coritiba e a UFPR, acadêmicos de graduação, bem como dos de pós-graduação, cuidam e pesquisam sobre o acervo documental. Nesse sentido, são pessoas com interesse em pesquisar mais a história do Clube e sua relação direta com a cidade de Curitiba.
O núcleo do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná formou o grupo de pesquisa e extensão. O grupo conta com alunas e alunos também de outras áreas da UFPR, como da História, Ciências Sociais e Educação Física. A equipe iniciou os trabalhos acadêmicos no acervo histórico do Coxa em 02/07/2025.
O professor Luís Fernando Lopes Pereira é o líder do grupo de pesquisa. Quem também colabora com o grupo é o professor de Sociologia na Faculdade de Direito, Rodrigo Horochowski. Ele acompanha as atividades de pesquisa científica do grupo. Entre os achados do grupo, borderôs e relatórios financeiros de todos os jogos do Coritiba no Torneio do Povo.
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As principais responsabilidades da diretoria do Coritiba Foot Ball Club, como Associação, estão vinculadas à fiscalização do contrato de compra e venda da SAF. Nesse sentido, são obrigações diretivas:
– Principalmente, acompanhar o cumprimento do pagamento das dívidas, em especial das parcelas da recuperação judicial da Associação;
– Da mesma forma, o cumprimento dos aportes financeiros anuais na gestão do Clube (futebol e atividades de apoio);
– Além disso, a gestão patrimonial. Inclusive quanto a manutenção e investimentos no CT Bayard Osna, no novo CT, tanto quanto no Estádio Major Antônio Couto Pereira;
– Bem como, os cuidados com a preservação histórica.
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Se você encontrou algum erro nesta matéria, por favor, entre em contato. Além disso, o Coritiba Foot Ball Club preza pelos créditos merecidos, então nos avise sobre eles.